As Viagens Inesperadas de 2017

Eu iniciei 2017 sem planos. Pela primeira vez eu não tinha uma lista exata de coisas a fazer ou alcançar no novo ciclo que se iniciava. Tudo que eu queria era me reconectar comigo mesma e recuperar um pouco da felicidade que se esvaiu de mim ao longo dos últimos anos.

Minha vida já estava em processo de mudança. No final de Dezembro eu recebi o aceite do Médicos Sem Fronteiras e sabia que a qualquer momento tudo poderia mudar. Fui organizando minha vida pessoal e profissional para que, quando essa nova realidade batesse, eu pudesse recebê-la com um pouco mais de preparo. Mas nada poderia de me deixar pronta para um e-mail que eu recebi em um dia qualquer daquele Janeiro: era um convite da organização para passar 10 dias em Oslo, num treinamento inicial antes da minha primeira missão.

{Oslo – Fevereiro, 2017}

Desembarquei na Noruega no final de Fevereiro. Os termômetros marcavam -10 graus. Uma chuva fina e gelada caia do céu e no chão ainda estava visível as marcas da nevasca que tinha rolado algumas horas antes. Foram dias intensos de treinamento, das 7 da manhã às 10 da noite, mas, mesmo assim, deu para experimentar um pouquinho da cidade, visitar algumas das principais atrações, e ficar com um gostinho de quero mais. Agora, 10 meses depois e com tantos amigos Noruegueses que eu fiz no MSF, com certeza irei voltar em breve.

Diretamente de Oslo eu embarquei para Bruxelas, onde mais uma semana de treinamentos me aguardava. Era também a minha primeira vez na cidade, e eu me apaixonei perdidamente pela arquitetura, pelas cervejas e pelo ambiente internacional da cidade. Além disso, uma das sedes do MSF fica por lá. Aliás, a ONG conta não só com um, mas três espaços incríveis na cidade – inclusive um centro de distribuição de medicamentos enorme, e o qual foi super interessante de conhecer.

{Bruxelas – Março, 2017}

Esqueci de mencionar que, antes de embarcar para Oslo, vindo de Campinas, eu tive uma longa conexão em Lisboa. Como eu já sabia que a Noruega estaria geladíssima, aproveitei o tempo na cidade para sair do aeroporto, comprar um casaco “mais potente” em alguma lojinha bacana lusa, e, porque não, passar o tempo dando umas voltinhas pela Rua Augusta e a belíssima Praça do Comércio – um dos meus lugares favoritos por lá. Foi rápido, mas deu para matar um pouquinho da saudades.

{Lisboa – Fevereiro, 2017}

Cheguei ao Brasil, finalizei meu aviso prévio no hospital, tomei uma das decisões mais difíceis da minha vida, e parti para uma viagem espontânea à Ouro Preto: onde, 9 anos depois, eu fechava um ciclo que se iniciou ali, na mais famosa cidade histórica de Minas Gerais. Foram somente três dias, mas eu entendi rapidamente que essa viagem seria especial. E foi. Além disso, tendo minha irmã, minha mãe e uma das minhas tias comigo tornou tudo ainda mais gostoso – e menos doloroso. Antes de voltar para casa, ainda paramos na vizinha Mariana, já que ela fica bem no caminho.

{Ouro Preto – Março, 2017}

{Mariana – Março, 2017}

Cheguei de Minas e já embarquei em um final de semana de praia e sol com vários blogueiros de viagem que estavam participando da segunda edição do Pocando no ES: um encontro de blogueiros que acontece no Espírito Santo, e é comandado pelo blog Capixaba na Estrada. Viajamos por belíssimas praias do sul do estado, localizadas nas cidades de Guarapari, Marataízes e Anchieta. Desvirtualizei ali várias pessoas lindas que há meses (e até anos) eu tinha como amigos virtuais. Vivemos dias intensos e felizes, saboreando tudo de gostoso que o Espírito Santo tem a oferecer – literalmente.

{Marataízes – Março, 2017}

{Anchieta – Março, 2017}

{Guarapari – Março, 2017}

Energizada com todas as portas que a vida estava abrindo para mim, comprei passagens sem destino concreto para Foz do Iguaçu. Tudo que eu sabia é que minha irmã e eu desembarcaríamos na cidade e passaríamos, talvez, dois ou três dias por lá. O resto, só Deus poderia prever. Então, meados de Abril partimos para o Paraná. Ficamos em um hostel diferente do qual eu fiquei da primeira vez que estive por lá, mas também localizado do outro lado da fronteira, em Puerto Iguazú, na Argentina – minha cidade de escolha na tríplice fronteira.

{Foz do Iguaçu – Abril, 2017}

{Puerto Iguazú – Abril, 2017}

Visitamos as Cataratas, o mosteiro Budista e fizemos amizade com um grupo incrível de turistas Israelenses, que se tornaram nossa companhia por lá, além do staff do hostel, que é sensacional. Mas era hora de seguir viagem, então decidimos ir adentrando a América do Sul pelo Paraguai, e de Ciudad del Este, embarcamos em um ônibus noturno até a capital do país, Assunção. Da estação rodoviária, tomamos um táxi até a primeira casa onde nos hospedaríamos – e mais uma vez eu saía da minha zona de conforto: ficaríamos com um casal Paraguaio muito simpático que nos ofereceu hospedagem pelo app do Couchsurfing.

{Assunção – Abril, 2017}

Chegamos na casa no meio da madrugada. Eles nos aguardavam com uma guacamole recém preparada e muita disposição para papear. Além disso, tinham um gato muito fofo e carinhoso chamado Mono. Pegamos no sono algumas horas depois, mas acordamos cedo para explorar a cidade. Um dos colegas de casa do casal, que estava saindo para trabalhar, nos ofereceu uma carona – e assim partimos para o centrinho de Assunção. Confesso que a cidade, turisticamente falando, não foi tão emocionante assim. Ainda mais porque uma manifestação bem pesada havia ocorrido alguns dias anteriores, e muitas construções estavam pichadas ou com vidros quebrados. Mesmo assim, experimentamos um pouquinho da vida na cidade através dos nossos anfitriões.

{Resistência – Abril, 2017}

Deixamos o Paraguai e adentramos a Argentina, mais uma vez, em outro ônibus noturno. Descemos em Resistencia: uma cidade que até então eu nunca tinha ouvido falar, mas que entrou no roteiro pois era a parada ideal para quem tá entrando no país através de Assunção. Além disso, um garoto de cerca de 25 anos, que já hospedou mais de 500 viajantes na sua casa, me mandou uma mensagem também pelo Couchsurfing falando que, se eu passasse por Resistencia, não deixasse de contactá-lo, pois ele nos hospedaria com prazer.

Então, às 6 da manhã, num dia bem frio de inverno, desembarcamos por lá. Conectei meu celular para falar com o tal garoto e pegar instruções para a sua casa, mas ele, gentilmente, se ofereceu para vir nos buscar na rodoviária junto com o irmão. Logo já estávamos encantadas com as histórias desses dois, e os dias em Resistencia se tornaram tão agradáveis, que duas noites rapidamente se transformaram em uma semana, e eu não tinha mais certeza se conseguiríamos sair dali. Exploramos a cidade, fizemos bate e volta para a vizinha Corrientes, participamos de uma mostra de cinema mudo e ainda fomos convidadas para uma festa de aniversário na casa de um argentino que a gente nunca tinha visto na vida. E é claro que nós fomos!

{Corrientes – Abril, 2017}

Nossos dias na capital argentina das esculturas, certamente, merecem um post a parte nesse blog – e eu vou escrever. Mas um dia, enfim chegou a hora de partir, e tomamos um ônibus para Salta – o mais longo percurso do nosso mochilão. Foram 12 horas de estrada, mas muito confortáveis. Entramos na cidade com o dia amanhecendo e rapidamente nos demos conta de que estávamos adentrando um local especial. Não a toa a cidade tem o apelido de “la linda“. Nessa mesma manhã iniciava o dia 3 de Maio: meu aniversário. Tivemos não só um dia gostoso, mas uma semana incrível em uma das cidades mais maravilhosas em que eu já estive.

{Salta – Maio, 2017}

Mantivemos a base em Salta e fizemos muitos passeios pelos desertos, parques e vinícolas nos arredores. Visitamos cactos gigantes e estradas sinuosas. Fizemos amizades com cachorros selvagens e llamas cheias de laços coloridos. Passamos por cidadezinhas lindas, como San Lorenzo, Cafayate, Cachí e San Atonio de los Cobres. Saímos para jantar e dançar com amigos locais. E, um dia qualquer, finalmente, seguimos viagem mais uma vez – chegando já no entardecer à linda Purmamarca.

{San Lorenzo – Maio, 2017}

{Cafayate – Maio, 2017}

{Cachí – Maio, 2017}

{San Antonio de los Cobres – Maio, 2017}

{Purmamarca – Maio, 2017}

Nossa passagem por lá foi rápida, infelizmente. Mesmo que a cidade seja pequena, há muito para oferecer. Eu ficaria tranquilamente uma semana por lá, curtindo os restaurantes locais, as ruas de areia e a paisagem linda das montanhas nos arredores. Mas a última cidade da viagem nos aguardava, então, depois de uma passagem rápida em Jujuy para algumas burocracias, como ir ao banco e trocar dinheiro, seguimos para a última e mais especial cidade do mochilão: a mágica Tilcara.

{Tilcara – Maio, 2017}

Eu preciso escrever um post específico sobre Tilcara. Nem tenho como explicar o quão surreal foram nossos dias por lá. Ficamos 4 noites, mas eu juro que um mês não seria suficiente para viver tudo que esse pequeno povoado de 2500 habitantes tem a oferecer. Eu me reencontrei, finalmente, em uma das lindas noites que tive por lá. Tomei um dos três ônibus que faria o caminho reverso até Foz do Iguaçu, com a leveza de quem sabia que tinha vivido uma experiência que para sempre mudaria a minha vida. Nossas últimas paradas na Argentina foram em Posadas, para uma conexão, e mais uma vez em Puerto Iguazú, onde passamos a nossa última noite antes de pegar o voo para casa. Juro, eu quase não voltei!

{Brasília – Setembro, 2017}

Daí em diante foi uma longa espera pelo meu visto Paquistanês. Viajei para a casa de vários familiares, visitei muitos amigos, armei inúmeras despedidas. E, em meados de Setembro, recebi a notícia de que precisaria fazer um bate e volta até Brasília para uma entrevista no consulado antes deles liberarem meu passaporte. Eu estava no meio do nada, em Minas Gerais. Peguei um ônibus noturno (tá vendo aqui um padrão?) até Belo Horizonte, e de lá um voo até a capital do país. Minha entrevista durou menos de 5 minutos, mas eu aproveitei o fato de estar de novo por lá para visitar o Palácio da Alvorada.

{Rio de Janeiro – Setembro, 2017}

Na mesma semana, outro bate e volta surgiu: fui ao Rio resolver umas últimas coisas no escritório brasileiro do MSF. Meu passaporte estaria pronto daqui há alguns dias e logo eu embarcaria de mala e cuia para a Ásia. Menos de uma semana depois, recebi meu documento – e a notícia de que em três dias eu deveria estar em Bruxelas, onde teria mais 5 dias de reuniões e briefings pré-missão. Foi tudo tão rápido, corrido e caótico, que quando eu cheguei no aeroporto de Vitória para embarcar, nem mesmo o nome do meu hotel eu tinha em mãos…

{Bruxelas – Setembro, 2017}

Mas tudo deu certo. Meu voo foi tranquilo, com uma rápida conexão em Roma, e sem grandes problemas na imigração (eu estava temerosa quanto ao visto para o Paquistão no meu passaporte – e sim, eu fui questionada sobre ele, infelizmente!). Os dias em Bruxelas foram incríveis. Não só porque eu, finalmente, senti que a minha vida profissional no MSF estava começando, como também porque eu fiz mais um número maravilhoso de amizades na cidade – e em tão pouco tempo. Como, depois de todas as reuniões, eu ainda tive um final de semana livre, aproveitei para fazer um bate e volta até uma das principais atrações turísticas da Bélgica: a charmosa Bruges. Foi delicioso. A cidade é linda e o passeio fechou com chave de ouro minha passagem pela Europa.

{Bruges – Setembro, 2017}

Desembarquei em Islamabad no dia 2 de Outubro, depois de uma longa conexão em Dubai. Já são quase três meses incríveis por aqui, com uma nova casa, um novo trabalho e uma nova vida. Aqui no país eu já visitei Carachi, a antiga capital e cidade mais populosa do Paquistão, e hoje escrevo esse post do meu quarto em Timergara, onde estou a trabalho em outro projeto que temos por aqui. Certamente, está sendo um fim de ano bem distante de como eu fechei o meu 2016. E, só agora, colocando no “papel”, percebi o número de voltas que a vida deu para que eu chegasse até aqui.

{Islamabad – Outubro, 2017}

{Carachi – Novembro, 2017}

{Timergara – Dezembro, 2017}

Para 2018 vou seguir a mesma linha do ano passado: não fazer uma lista de desejos detalhados e metas restritas. Vou deixar aberto, para a vida se encarregar da sua própria mágica. Só quero novos destinos, mais amigos ao meu redor e mais autoconhecimento. Quero sempre evoluir e ser uma companhia agradável pra quem está presente no meu dia a dia. Quero levar amor e alegria onde quer que eu for. E quero que meus dias sejam felizes, como essa tarde de fim de ano está sendo.

Um ano novo maravilhoso para todos nós!

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