Bate e Volta à Colonia del Sacramento: A Travessia, O Farol & Os Suspiros

Buenos Aires, na minha opinião, tem coisas suficientes para preencher todas as horas de uma viagem tranquilamente, mas muita gente ainda aproveita a proximidade com o Uruguai e o fácil acesso para dar uma esticadinha até Colonia del Sacramento: uma charmosa cidadezinha cujo o centro histórico é tombado como Patrimônio da Humanidade – e que está localizada do outro lado do Mar de la Plata.

Eu nunca concordei com isso, confesso. Apesar de entender quem faz o passeio, gosto de aproveitar bem o destino principal da minha viagem, e sempre acabo deixando para lá essas idéias de bate e volta. Mas, contrariando todos os alertas na minha cabeça, acabei fazendo esse day trip no ano passado. Uma pequena pausa durante a semana que eu passei na capital Argentina. E como não era a minha primeira vez por lá e já conhecia todos os principais pontos turísticos, achei que tinha a desculpa perfeita para deslizar nos meus próprios princípios.

Eu tomei a decisão de ir para o Uruguai quando já estava em Buenos. Comprei nossas passagens (mamãe estava comigo) no computador do hostel. Tudo pode ser feito online, no site da empresa desejada. Eu entrei em cada uma das três opções de balsas que liga a Argentina ao país vizinho e escolhi a opção que estava mais barata no dia: Colonia Express. A pesquisa é como em um site de passagens aéreas: você insere porto de saída, o porto de destino e a data desejada. Aperta buscar e aparecem várias opções. Eu escolhi uma que era bate e volta no mesmo dia. Saía de Buenos Aires cedinho, por volta das 8 da manhã, e voltava no fim da tarde, lá pelas 17 horas. O pagamento é feito com cartão de crédito e na hora você já recebe os vouchers da compra, com muitas e muitas vias – as suas, as da imigração Argentina, e as da imigração Uruguaia.

Chegamos ao porto de embarque com uma hora de antecedência. Ele fica localizado na região de Puerto Madero (e tem um visual externo muito mequetrefe). Eu estava um pouco preocupada, pois dizem que eles costumam ter muitos cancelamentos, mas nesse dia tudo funcionou bem: nos apresentamos no “check-in“, passamos pela segurança, pelo raio-x, e fomos para a fila da imigração. Lá, cada guichê são, na verdade, dois – no primeiro está o oficial da Argentina, que registra a sua saída do país, e no segundo, o oficial uruguaio, que já registra a sua entrada.

Da imigração nós seguimos para a sala de embarque. O barco saiu no horário certinho, e uma hora depois já estávamos desembarcando no Uruguai. Este é a opção mais rápida, porém existem barcos mais lentos e, consequentemente, mais baratos, que fazem a travessia em até 3 horas. E, para ficar ainda melhor, apesar de toda a chatice do embarque, na chegada basta pegar as suas bolsas e sair, afinal, a imigração já esta feita. Pertinho do porto está localizado um Centro de Informações aos Turistas. Nós passamos por lá e pegamos um mapinha gratuito da cidade. Foi ótimo, porque nos ajudou a economizar o pouco tempo que teríamos por lá.

Chegando em Colonia, caminhamos até chegar à parte do centro histórico. Lá, após algumas voltinhas, encontrei um dos principais cartões postais da cidade: o Farol. Erguido em 1857 dentro das ruínas do antigo convento São Francisco, que foi construído em 1694 e foi destruído por um incêndio 10 anos depois, o farol é uma construção única no Uruguai devido ao seu formato, que se inicia em uma base quadrada e termina com um topo arredondado. Além disso, ele proporciona a melhor vista de Colônia, com uma plataforma de observação de 360º, dando ao visitante a oportunidade de visualizar pontos de toda a cidade, o agitado Rio de la Plata e, dizem que em dias com clima muito bom, dá até mesmo para enxergar o skyline de Buenos Aires na margem oposta.

A subida consiste em 118 degraus em espirais, que dão voltas e mais voltas até o topo – o que pode até levar à uma certa tontura. Além disso, o “corredor” da escada é bem estreito, então não recomendo para pessoas que possuem problemas de saúde, como claustrofobia ou labirintite. Muito cuidado também com as cabeças, pois o teto e as portas são bem baixos. No farol, existem dois pontos de observação: um localizado um pouco acima da metade dos degraus, e outro já no final da escadaria, onde se encontra a lamparina do farol. Para quem tem medo de altura, não recomendo ir na primeira parada – ainda que mais baixa, ela não possui um espaço com a proteção que a do topo possui.

Nós visitamos o farol pela manhã, e achei tudo muito lindo. Gostei de verdade da experiência, ainda que o dia estivesse nublado. Mas, confesso que esse clima tem seu charme: o céu estava bem cinza, no ar havia uma vibe meio que bucólica, e o agito do Mar de La Plata, forte e constante, me remeteu aos Hamptons no inverno. Ficaria do resto dos meus dias apreciando aquele vai e vem das águas. Porém, se você chegar à cidade em um dia ensolarado, o recomendado é subir até o topo do farol no fim da tarde, para aproveitar o por do sol lá de cima. Garanto que vão rolar ótimas fotos.

Do farol, seguimos caminhando para a rua que, provavelmente, é a mais famosa de todo Uruguai. Nomeada Calle de los Suspiros, essa ruela de pedras, com casas fofas e decoradas com flores, atrai muitos turistas por sua beleza e por suas histórias – e também seus folclores. Muitos acreditam que a rua leva este nome pois, há muitos anos atrás, aqueles que eram condenados por crimes e delitos seguiam por este caminho, onde eram amarrados e jogados no mar para morrerem afogados. Era ali que davam seu, suposto, último suspiro. Outros afirmam que a calle era uma antiga região de bordéis, e por isso o som de suspiros por lá era algo muito comum. Já a terceira lenda remete ao fantasma de uma mulher que assombra a ruela nas noites de lua cheia. Ela, supostamente, teria sido morta a facadas lá enquanto aguardava pelo seu amado. Eu prefiro acreditar que os suspiros se dão pelo fato da rua ser tão linda.

Aproveitamos as poucas horas na cidade para explorar o centro histórico, visitar alguns pontos importantes e comer – claro. Depois eu vou escrever um pouco mais sobre o que a gente experimentou por lá em termos de gastronomia. Quanto ao que eu falei no começo, sobre viajar para passar um dia, continuo achando que não vale a pena. Apesar de não ter sentido falta do dia cortado de Buenos Aires, acredito que falhei com Colonia. Um bate e volta, por menor que seja a cidade, não é nem de longe o suficiente para de fato conhecê-la. E, por isso, saí de lá com a certeza de que um dia eu voltarei.

O retorno à Buenos Aires se dá, basicamente, da mesma forma. A imigração é feita todinha lá no Uruguai, e chegada na Argentina é super tranquila. Porém o porto é de Colonia é melhorzinho, cheio de lojinhas – inclusive, foi lá que eu comprei um dos meus souvenires de viagens que mais amo: um lindo mapa da cidade. Quanto a travessia, confesso que o mar estava bem turbulento naquele dia, especialmente na volta, já que a noite caía no Rio de la Plata. Estava frio, chovendo e ventava muito. As águas estava agitadas, as ondas grandes e o barco balançava bastante. Tanto eu quanto mamãe já havíamos andado em barcos assim em outras viagens e estávamos tranquilas. Não sentimos enjoos e rimos muito de toda a adrenalina. Mas não é preciso reforçar que, não sei se esse é o tipo de passeio para quem tem medo de água, ou de barcos. Ou, até mesmo, para os mais fracos do estômago – pois o vai e vem estava fazendo muita gente passar mal.

Fora isso, o barco é mais que confortável. Tem TV, um time de “comissários” para atender prontamente aos passageiros, poltronas confortáveis, e até mesmo um mini free shop para os entusiastas de comprinhas. Eu não encontrei nada de muito interessante, mas já foi uma distração da viagem, que passou logo e, em cerca de uma hora, já desembarcávamos de volta no porto de Buenos Aires.

Colonia Express
Pedro de Mendoza 330, Dársena Sur
Buenos Aires, Argentina
Tel.: +54 (11) 4317.4100
Funcionamento: Segunda a Domingo, de 9 a 19 hs
www.coloniaexpress.com