Oslo Haraldsheim

Minha hospedagem durante os 10 dias em que estive em Oslo foi um albergue muito bacana localizado em uma área mais afastada do centro e bem residencial. Afinal, éramos uma turma de cerca de 25 novos funcionários do Médicos Sem Fronteiras e estávamos ali para participar de uma série de treinamentos fundamentais para quem está entrando na organização. Uma localização que nos permitisse focar no que estava acontecendo ali dentro, assim como desligar do mundo externo, era imprescindível. E, por essas e outras, acredito que não teriam escolha melhor que o Oslo Haraldsheim.

Confesso que minha primeira experiência com o hostel não foi das melhores: cheguei na cidade no fim do dia, com o céu já bem escuro. Era fevereiro, em pleno inverno Norueguês. O chão da cidade estava coberto de neve e uma garota gelada caia por toda Oslo. Do aeroporto, peguei um combo de trem + ônibus e, com um pouco mais de uma hora, eu desembarcava na parada supostamente em frente ao hostel. Acontece que ele está no meio de uma espécie de parque, o qual eu tive que atravessar com uma mala de rodinhas.

Imagines só: neve + chuva + gelo, além do pequeno morro no qual o albergue se encontra. Tudo isso resultou em uma dificuldade extra na hora da chegada. Na estrada que liga a via principal ao hostel, e que estava teoricamente limpa, uma fina camada de gelo se formava por conta da chuva, então eu acabava deslizando, ainda que estivesse com sapatos apropriados. Já no campo coberto de neve, eu caminhava melhor, porém a mala de bordo, super pequena e compacta, ganhava um peso a mais causado pelo atrito e pelo fato de que, vez ou outra, ela simplesmente afundava.

Cerca de 30 a 40 minutos depois, quando eu finalmente cheguei na recepção, ri de desespero. Deve ser uma espécie de eliminatória, para conferir se realmente estamos prontos pros desafios que este trabalho nos trará. Mas rapidamente me recuperei e fiz o check-in. Uma outra brasileira que também participaria desse treinamento, já estava por la no nosso quarto, que seria dividido com mais duas meninas. Nós havíamos trocado contato anteriormente e já tínhamos combinado de fazer algo nessa primeira noite, pois era uma das únicas que teríamos livre e queríamos aproveitá-la. Conhecemos também mais 4 pessoas que já tinham chegado nesse dia: dois italianos, um egípcio e uma sul-africana – que também seria nossa roommate. No fim das contas, acabamos ilhados no albergue, comendo cup of noodles e batendo papo sobre nosso novo e excitante trabalho.

Ainda que a primeira noite nossos planos tenham sido um fracasso: pedimos um uber, que veio nos buscar, porém não conseguia subir a ladeira. O carro deslizava e, por um segundo, eu achei que o motorista teria que largá-lo ali, pois não havia a opção de “voltar para trás”. Depois nós rapidamente aprendemos que, na Noruega, a melhor coisa é contar com o transporte público, que é extremamente eficiente. E assim, mesmo com neves mais fortes nos dias seguintes, ainda conseguimos sair nos nossos tempos livres. Aliás, apesar de afastado do centro, chegávamos à estação principal e perto de todas as atrações em apenas 10 ou 15 minutos de ônibus – não foi nada impossível.

Porém, tanto a localização, quanto a estrutura do hostel são ideais para treinamentos, palestras, cursos ou, até mesmo, para o tipo de viajante que gosta de ter um certo sossego quando chega na hospedagem. Com vários auditórios, refeitórios e pátio externo, o albergue não só recebe os funcionários da nossa organização que passam por treinamentos na cidade, como diversos outros grupos europeus que se reúnem em Oslo. Inclusive, havia um grande número de jovens franceses durante o período que estávamos por lá.

Na nossa diária estava incluída o Café da Manhã e, creio eu, as demais refeições devem ter sido providenciadas a parte juntamente com o hostel, que possui cozinha profissional e um chef a disposição. Tudo que comemos por lá estava maravilhoso e eu aproveitei para experimentar algumas iguarias típicas da Noruega. Nós almoçamos, tomamos café da tarde e jantamos no albergue praticamente todos os dias, além de termos a disposição café, chás e petiscos para os intervalos durante o curso, que era extremamente puxado e acontecia das 7 da manhã até as 10 da noite. Outros hóspedes, assim como os demais albergues do mundo, contavam com uma cozinha a parte onde eles cozinhavam suas próprias refeições.

O pátio externo, no verão, provavelmente é a maior atração do local. Tem mesas e bancos propícios para piqueniques, além de um extenso gramado com campo de futebol. O xadrez gigante, que estava encoberto pela neve, dá o toque de charme e, provavelmente, é a parte mais fotografada do hostel. Porém, no inverno, essa beleza não está visível, o que não quer dizer que não tivemos a nossa cota de lindeza durante os dias por lá. Após uma grande nevasca que durou a noite toda, acordamos com o pátio e o parque bem branquinhos. Era um dia que teríamos que ir até o escritório local da organização e todos caminhamos encantados, tirando fotos e sorrindo muito. Foi certamente a mais bela manhã nesses dias em Oslo.

Quanto ao nosso quarto, ele era super simples, mas contava com tudo necessário para o nosso conforto. Tinham duas beliches, uma mesinha entre elas, quatro armários com tranca, além de banheiro privativo. Ao lado de cada beliche haviam duas tomadas e, cada cama possuía uma luz própria, para quem quisesse ler até mais tarde sem incomodar os colegas. Falando nisso, além de mim, da outra brasileira e da médica sul-africana, ainda tivemos uma enfermeira canadense como companheira de quarto nesses 10 dias – e demos certo logo de cara, transformando a experiência em algo ainda mais legal. Hoje somos todas amigas e mantemos contato sobre tudo, desde a vida até o trabalho de cada uma de nós pelo mundo.

E não foram só elas que me marcaram nesses dias em Oslo. Por lá, tive a chance de interagir com todos os participantes do treinamento. Acho que o “confinamento” proporcionou este presente: deixamos de focar no mundo externo, para focar em nós mesmos e nas nossas relações interpessoais – algo que é de extrema importância dentro da organização. Criamos um grupo no facebook onde todos atualizam suas trajetórias dentro do MSF e já saímos de lá planejando o reencontro. Quem sabe quando comemorarmos um ano dessa deliciosa experiência?

Oslo Haraldsheim
Haraldsheimveien 4
Oslo – Noruega
Tel: +47 22 22 29 65
haraldsheim.no

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Médicos Sem Fronteiras

Como eu contei no post anterior, há algum tempo atrás eu tomei a decisão de tirar um sabático do meu cotidiano. Eu usaria este período para viajar, cursar um mestrado, aprender uma nova língua ou fazer algum trabalho voluntário. Algo muito mais relacionado com meu “eu” e a minha essência, do que com as funções e obrigações que a sociedade espera de mim.

Dentre as muitas pesquisas que eu fiz me preparando para este período, acabei esbarrando com a ideia de juntar minha profissão com algo muito maior que eu, como uma organização humanitária, onde eu poderia utilizar meus conhecimentos para levar saúde àqueles que não tem acesso a ela. E, depois de muita pesquisa e um intenso processo seletivo, em 16 de Dezembro de 2016 eu recebi a notícia de que faço parte, oficialmente, da maravilhosa equipe do Médicos Sem Fronteiras.

Nem ainda parti para minha primeira missão e já tenho certeza de que 2017 será um ano como nenhum outro na minha vida. Vai ser um período de crescimento, não só profissional, como também pessoal. Uma chance de viver o tipo de experiência que nos muda… Que cria uma bagagem na nossa alma, a qual levarei para sempre comigo.

Ainda sou nova na organização e estou começando a entender sobre o trabalho e tudo que envolve uma missão. Participei já de duas viagens e três treinamentos com eles – ocasiões onde conheci alguns colegas de trabalho e gente que sei que estará na minha vida para sempre.

Sei que tem muita gente que tem curiosidade de saber como é o trabalho (e a vida) dentro do Médicos Sem Fronteiras e eu prometo contar um pouquinho do que for possível. Aliás, os expatriados escrevem diários que são postados na página oficial da organização para que, aqueles que tem curiosidade em saber como é o dia a dia em campo, possam acompanhar. Eu já pedi para contribuir com tudo que eu conseguir documentar dessa experiência – e pode deixar que eu aviso aqui para vocês.

Me mandem energias positivas. Mal posso esperar para embarcar!

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