Trem Noturno Para Lisboa

Eu estive duas vezes em Lisboa: uma breve passagem enquanto voltava de uma viagem pela Itália, e outra rápida conexão, com direito a 7 horas de passeios pela cidade, antes em embarcar para a Noruega. Sim, confesso que atá então, eu era mais uma Brasileira que não dava a minima para Portugal. Meu pensamento era aquele de que “existem tantos países mais interessantes por aí, porque desperdiçar toda uma viagem por lá?“. Mal sabia eu que assim que eu pusesse meus olhos no rio Tejo (e no brilho diferente que o sol tem quando refletido nele), cairia de amores por Lisboa em segundos.

Só nesse ano, depois da segunda passagem por Lisboa – e a ida para a Noruega – eu já viajei para o Paraguai, para a Argentina, para Bruxelas (duas vezes), para Roma, para Dubai… Mas a viagem longa para Lisboa nunca aconteceu. É engraçado como a vida dá umas voltas e os planos saem completamente ao contrario do que a gente imaginava né? Quem diria que, antes de conhecer Paris, eu estaria morando no Paquistão? Eu certamente nunca imaginei que isso fosse provável. Mas isso aconteceu e, para o ano seguinte, vários outros destinos estão “se alinhando” – alias, locais que eu nem imaginaria que iria visitar – e voltar a Lisboa, infelizmente, ainda não está nos planos.

Então, eu decidi viajar para la utilizando uma forma alternativa, barata e que certamente é a minha favorita (juntinho com as viagens de verdade, claro): através dos livros e filmes. Há uns meses atrás eu dei de cara com um longa no Netflix chamado Trem Noturno Para Lisboa. Eu sabia que já havia lido esse nome por aí. Depois de uma rápida pesquisa, constatei que ele era baseado em um livro de grande sucesso, com uma pegada filosófica, mas que conversa com a gente de maneira bem eficiente, porém profunda.

Na historia, acompanhamos o personagem Raimund Gregorius: um professor universitário suíço e estudioso de línguas antigas (Grego, Hebreu e Latim), que larga toda a vida em Bern por conta de um breve encontro com uma misteriosa Portuguesa, um repentino fascínio por essa deliciosa nova língua, e um livro chamado Um Ourives das Palavras – uma especie de auto-biografia do médico Amadeu de Prado, que cai nas suas mãos quando ele começa a pesquisar um pouco mais sobre Portugal em um dos sebos da sua cidade.

No livro, o médico-escritor pondera as decisões que tomamos na vida, assim como os caminhos que seguiríamos se pudéssemos voltar no tempo e refazer toda nossa historia. Gregorius, que até então viveu uma vida focada na sua excelência como profissional, completamente dentro de uma rotina, se vê empolgado com algo novo pela primeira vez em anos. E num repentino surto de coragem, ele segue para a Franca, de onde toma um trem noturno até a cidade de Lisboa.

Chegando lá, com apenas o endereço de um hotel, fornecido por um companheiro de viagem, Gregorius começa sua jornada em traçar os passos de Amadeu pela capital de Portugal. Aos poucos, tenta dominar a língua Portuguesa, enquanto traduz os textos desse fascinante homem. Entre um trecho e outro, ele relata pequenos encontros com os detalhes que fazem de Lisboa a grande personagem dessa história: as fachadas azulejadas, os moradores peculiares, os sorrisos fáceis que vão ate os olhos. Pouco a pouco, a vida que um dia se esvaiu de dentro dele, começa a retornar. E a viagem, que parecia insensata, ganha sentido pouco a pouco.

Eu me identifiquei muito com Gregorius – e também com essa jornada de coragem e recomeço que ele conta no livro. Em 2017 eu finalmente recuperei o brilho nos olhos que havia se perdido nos últimos anos. Não foi pelas ruas de Lisboa, mas foi enquanto eu participava de um treinamento em Oslo para um novo trabalho que há muitos anos eu almejava; Ou enquanto eu vagava pelo frio intenso do deserto de Salta, em pleno inverno Argentino; ou mesmo quando escuto as chamadas para as orações as 4 e pouca da manha, do silencio do meu quarto aqui no Paquistão.

Coragem para mudar um estado de conforto e tranquilidade pode ser bem mais difícil do que uma mudança na turbulência. Garanto que também vem acompanhado de muito mais criticas. Pode ser considerado louco aquele que abandona um “bom emprego, um lar estável e um relacionamento bacana” em busca de uma sensação de contentamento que, quem esta de fora, muitas vezes não percebe o quanto é importante para você. E o quão vazio você pode estar se sentindo.

As vezes, nem você mesmo sabe que precisa de uma mudança. Em muitos dos casos, só nos damos conta de que tudo acontece por um motivo, quando os caminhos mais malucos que já tomamos na vida, começam finalmente a fazer sentido. Tome um trem noturno para algum lugar (ou um voo, porque não?), só não deixe o conforto e o medo te barrarem de alcançar tudo aquilo que você deseja – e, quem sabe, se você der uma tremenda sorte, pode acabar alcançando, até mesmo, aquilo que você nem mesmo sabe que deseja também!