Um Natal Especial

Confesso que, em meados de Novembro, eu comecei a pensar no Natal e em como seria passa-lo aqui no Paquistão. Foi a primeira vez que o “tema” me veio em mente. Mesmo sabendo que eu ficaria aqui por no mínimo 9 meses, não levei em consideração o fato de que eu estaria longe de casa durante as festas de fim de ano. E nem mesmo imaginei como eu estaria celebrando a véspera do dia 25 de Dezembro no final de 2017.

Meu primeiro pensamento foi de que seria uma mistura de sentimentos, levemente tendendo para o lado da tristeza, afinal, seria a minha primeira vez longe de algum tipo de familiar. Nos meus últimos 30 Natais, sempre passei ao lado da minha família, seja com meus pais, com meus avós, com alguma tia, um primo, ou até mesmo, com o meu ex e seus familiares, que, enquanto ainda estávamos juntos, se tornaram uma extensão do meu círculo de pessoas com as quais eu sentia que deveria estar em datas como essas.

Dezembro chegou e eu voltei à Islamabad, depois de duas semanas longe em uma viagem de trabalho. Cheguei determinada a dar a volta por cima: Na minha primeira noite na cidade, fui à um dos principais mercados em busca de alguns pisca-pisca, decorações natalinas e, quem sabe, uma árvore de Natal. Duas horas depois, voltei para casa de mãos abanando. Nas ruas, nem um mínimo sinal de que o Natal estava logo ali. Não tinham lojas decoradas, nem ruas cheias de pessoas comprando presentes, ou qualquer luzinha indicando que a época mais bonita do ano havia começado. E foi aí que eu me dei conta de que, não só passaria o Natal longe de qualquer tipo de familiar, mas também que eu estava contando com uma celebração de um feriado católico em um país quase que predominantemente muçulmano.

O primeiro sinal de que esse Natal seria especial veio ainda no começo de Dezembro, depois de muito vasculhar Islamabad por uma árvore. Eu encerrei mais uma noite frustrada, sem sucesso na minha busca, em uma das principais lojas de lenços e pashminas da cidade: um local onde a gente sempre vai, não só pela qualidade incrível dos produtos, mas também pelo atendimento sensacional do pessoal que trabalha por lá. Eu precisava comprar algumas coisas que uma colega de trabalho que mora em outra cidade havia encomendado, e aproveitei para afogar todas as minhas mágoas sobre o meu fiasco de Natal e como eu estava me sentindo triste por não encontrar nada para decorar a minha casa.

Me despedi falando que voltaria daqui alguns dias, não só para buscar um dos lenços que eles não tinham na hora, como também para dar mais uma olhada nas coisas novas que eles sempre recebem. E qual foi a minha surpresa quando retornei e encontrei a loja cheia de ornamentos natalinos que eles fizeram à mão para vender para os clientes internacionais. O sucesso foi tanto com os expatriados, que no dia em que eu visitei, muitas das peças já haviam sido vendidas. Aparentemente, a equipe da embaixada do Reino Unido comprou vários, para decorar os consulados no país. Eu escolhi alguns bem especiais e, ainda que eu não tivesse uma árvore, iria adicioná-los na minha coleção para sempre ter um pedacinho desse meu Natal comigo. Mas, na hora de pagar, fui surpreendida por um presente que eles haviam separado especialmente para mim: um ornamento de Natal pintado à mão na forma do símbolo nacional do Paquistão.

Depois dessa surpresa, mas ainda não acreditando que as perspectivas para esse Natal pudessem melhorar, mergulhei em uma semana intensa de trabalho, finalizei algumas coisas que eu precisava entregar e, logo me joguei em mais uma viagem à outro projeto que o MSF tem por aqui. Tudo que eu queria era esquecer que o Natal estava chegando, e só aproveitar o fato de que eu estava amando a minha experiência, o meu dia a dia como farmacêutica e todo aprendizado que ando colhendo nesse meu tempo aqui no Paquistão.

A cidade, onde eu vim passar um mês, inclusive o Natal, fica bem ao norte do país, cerca de uma hora da fronteira com o Afeganistão. O contexto é completamente diferente da capital, bem mais fechado e conservador, além de termos regras de segurança extremamente rigorosas – e por motivos inquestionáveis. Nossos movimentos, estritamente calculados, só são permitidos entre certos locais e certos horários. E nosso tempo livre é passado, basicamente, confinados entre as duas enormes construções que compõem a nossa casa por aqui. Eu rapidamente me dei conta de que, não só passaria o Natal dentro do cenário mais anti-natalino possível, como também, estava em prisão domiciliar por todo o período das festas de final de ano.

Mas claro, tudo começou a mudar…

Eu creio que não falei antes sobre isso aqui no blog, mas tenho como colegas de trabalho algumas das pessoas mais incríveis que já conheci. E também acredito que o fato de termos os mesmos pensamentos e os mesmos ideais de vida, acabam fazendo com que a nossa conexão aconteça de forma mais forte e verdadeira – e em um espaço de tempo tão pequeno, que nem mesmo sei explicar. Fiz amigos nesses quase três meses aqui com uma intensidade na qual eu nunca experimentei. Gente que eu convivi por uma semana em Islamabad, antes deles serem realocados para outros projetos dentro do país, e que agora, ao reencontrar, sinto como se revesse um velho amigo. Eu sei que a magnitude da vida dentro da missão amplifica os nossos sentimentos, mas também aprendi com os mais antigos na organização que, geralmente, os amigos que a gente faz dentro do MSF costumam durar toda uma vida.

E foi esses amigos tão recentes, que transformaram meu Natal. Cheguei em Timergara depois do almoço. Passei no escritório, recebi um tour do RH, conheci alguns membros da equipe com os quais eu só tinha tido contato via telefone ou e-mail. Era uma sexta e o fim do expediente foi mais cedo por motivos extraordinários. Ás 4 da tarde já estávamos em casa. Fui pro quarto no qual eu ficaria alojada durante o mês, desfiz as malas, comecei a separar tudo que eu precisaria levar na mochila comigo a partir de segunda. Assim que a equipe que estava trabalhando no hospital chegou, recebi uma mensagem no celular convocando para uma reunião na sala de TV. Achei que pudesse ser algo relacionado ao trabalho, mas não. Era um bate papo para iniciar os planos para o Natal!

Ainda naquela noite começou a maratona de filmes natalinos que fizemos até a véspera do Natal. Iniciamos com “Esqueceram de Mim“, e eu nem sei quando foi a última vez que eu assisti esse filme, ou quando eu assisti tantos filmes relacionados ao Natal enquanto aguardava a data. Foi tão gostoso fechar nossos dias assim. Estava muito frio, então a gente se juntava para fazer algum jantar gostoso, e depois se jogava no sofá, debaixo do cobertor, com um balde de pipoca, chocolates e uma xícara de chá/café quentinho. Foi a coisa mais gostosa que fizemos nesse Dezembro.

Além disso, nós construímos uma casa de gingerbread. Sim, construímos, porque, ainda que ela seja muito comum em vários países, como EUA e Inglaterra, onde você pode comprar os pedaços da casa prontos para montar, aqui não é bem assim não. Fizemos a massa todinha, com uma receita Norueguesa (que é bem tradicional) e cortamos os pedaços da casa baseados em moldes de papel. No final, ela ficou tão grande, que apelidamos de Sheesh Mahal – o nome da maior das nossas casas aqui no Paquistão.

Com o restante da massa fizemos muitos, muitos biscoitos. Alguns com os cortadores que conseguimos encontrar no mercado local, em forma de estrela, flor e coração, mas também teve free style nessa etapa, e sairam muitas árvores de natal, bonecos de neve e, claro, alguns gingerbread men – esses, obra minha. Não podiam faltar né? Depois de assarmos tudo, começamos a montagem da casa colando os pedaços com um caramelo feito com açúcar derretido. A decoração rolou logo em seguida, com muita pasta de açúcar de confeiteiro e M&Ms. Foi uma diversão sem fim!

Mas aí, enquanto meu espírito natalino estava há mil, se esquecendo de todas as negatividades que se passaram na minha cabeça antes de eu chegar aqui em Timergara, eis que finalmente sou agraciada com o “pacote de boas vindas do Paquistão“: uma infecção estomacal tão louca, que eu nem sei se já me senti tão mal em toda a minha vida. Quase três meses aqui me fizeram vangloriar com os colegas o quanto meu “estômago sul americano” me preparou para a vida no MSF, pois praticamente todo mundo pega essa infecção nas primeiras semanas aqui, e eu ainda estava imune. Mas eventualmente ela chegou, na madrugada de quinta para sexta – 3 dias antes do Natal.

Na manhã de sexta eu teimei e fui pro hospital trabalhar. Havia muito a ser feito. Às 10 da manhã eu estava dentro da maternidade, com uma mãe gritando enquanto seu filho “coroava”, e eu só pensava que a cama dela parecia super confortável. Deitar era tudo que eu queria. Eventualmente, depois de muito resistir, uma das médicas me colocou em um carro e me mandou para casa. Eu não conseguia comer nada, então dormi toda sexta e todo sábado – saí do quarto por alguns minutos quando os convidados de honra da nossa ceia chegaram: dois perus que os seguranças da casa compraram para nos presentear no Natal.

Um detalhe importante é que eles chegaram vivos e foram a atração da casa. Alguns colegas nunca tinham visto um peru vivo na vida, mas nessa parte do mundo não existe “comprar ave congelada“. É tudo orgânico. Logo, alguns desistiram de matá-los e deram a ideia de mantê-los como animais de estimação. Até nome os pobrezinhos ganharam: pintadinho e enrugado. Mas, eventualmente, o “curso natural das coisas” venceu e eles foram mortos e limpos pelos mesmos seguranças que trouxeram os perus para a gente – tudo de acordo com a tradição Islã, onde o “sacrifício” é feito voltado para Meca.

Aliás, como tem sido incrível conviver com o povo Paquistanês e aprender bem de perto um pouco mais sobre a cultura, além de absorver todos os ensinamentos que eles tem me proporcionado diariamente. Nosso Natal não seria o mesmo sem eles. Nossa casa aqui em Timergara possui, não uma, mas duas árvores de Natal, graças aos nossos Cha Cha (apelido carinhoso para nossos cozinheiros – usado especialmente para os mais velhos), que montaram tudo secretamente um dia qualquer. Todos, sem exceção, não só nos desejaram um feliz Natal, como fizeram de tudo para que tivéssemos de fato uma noite feliz. Quando o gerente de RH foi agradecer um dos seguranças pelo peru e por todo o trabalho em matá-lo e limpá-lo, ele respondeu que era “seu dever como um bom muçulmano nos ajudar a comemorar o nascimento do nosso Jesus“. Não é a coisa mais linda que você já ouviu?

Domingo pela manhã, eu ainda estava mal e já não acreditava que uma recuperação seria possível a tempo para a ceia. Nem as intermináveis canções de Natal que soavam pela casa me faziam acreditar que eu estaria presente para o jantar. A caminho da dispensa para buscar mais dois rolos de papel higiênico, encontrei um dos amigos pelo caminho e confesso que chorei por 5 minutos a minha má sorte. Não queria passar o Natal sozinha no meu quarto. Ele não disse nada. Só me deu um abraço forte por mais 5 minutos. E era exatamente o que eu precisava!

Dormi até as 6 da tarde. Acordei, tomei um longo banho, lavei o cabelo, coloquei um batom e um suéter novo que eu havia comprado especialmente para a noite do dia 24. Ainda que eu não fosse comer nada, eu estava determinada a participar do Natal. E que bom que eu venci o corpo doendo e a náusea. No final, comi um pedaço do Peru (que estava sensacional) e um pouco de purê de batatas. Pulei a sobremesa de chocolates, ainda que estivesse com uma cara deliciosa – não queria abusar da sorte.

Depois da ceia nos reunimos na sala de TV, com uma árvore de natal recheada de presentes no meios dos muitos sofás e colchões que temos por lá. Rolou um amigo urso, com não muitos “roubos”, mas muitas risadas. Os presentes eram super simples, e foram comprados na única mercearia local na qual podemos ir aos finais de semana – e por apenas uma hora. Mas não eram os presentes que importavam, era o momento único que estávamos dividindo uns com os outros. Ali eu percebi que não só eu estava “sozinha” aqui, mas que as outras onze pessoas que passaram o Natal comigo naquele dia, também estavam longe de seus familiares e amigos queridos. E, mesmo assim, conseguimos resgatar a magia daquela noite – acredito eu, mais ainda do que se estivéssemos em casa, com nossos presentes caríssimos, nossas garrafas de vinho e nosso jantar encomendado em um buffet.

Fechamos a noite enroscados em cobertores assistindo o último filme da maratona de Natal: Love, Actually – um clássico da data e favorito de muita gente que eu conheço. Inclusive colegas aqui da casa. Estavam todos ansiosos, ainda mais porque, ainda que eu seja super natalina, nunca havia assistido. Então foi ainda mais especial finalmente riscar esse filme da minha lista, envolta de tanta gente maravilhosa e de tanto amor. Acordei no dia 25 me sentindo quase 100%: comi restos da ceia e tomei café no pátio debaixo do sol com os amigos, enquanto recordávamos todos os motivos pelos quais esse foi um Natal super especial e do qual jamais iremos nos esquecer, pois ainda que a gente estivesse tão longe da nossa zona de conforto, nunca estivemos tão conectados com nós mesmos, tão leves por dentro e tão em sintonia com o propósito pelo qual estamos aqui!

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