Vida de Expatriada: Meu Primeiro Mês Longe do Brasil

Eu deveria começar esse post bem do comecinho né?
Contando num grande resumo como vim parar aqui na Ásia
Bem do outro lado do mundo

Eu sou formada em farmácia generalista há quase 10 anos. Cursei minha graduação em Vitória e fui muito feliz nos meus anos de estudante. Tive a oportunidade de aprender com profissionais incríveis, assim como estagiar em diversas áreas e participar de alguns congressos, simpósios e eventos pertinentes à minha profissão. Toda essa bagagem me garantiu meu primeiro emprego – uma proposta que chegou, antes mesmo de eu colar grau.

Nove anos depois, e alguns tombos pelo caminho, eu confesso que me encontrava perdida dentro do mercado farmacêutico. Tinha recebido uma proposta para atuar como farmacêutica hospitalar no único hospital da pequena cidade onde eu morava, e como já tinha passado pela minha cabeça entrar para essa área, resolvi aceitar o desafio. E acho que foi nesse dia que minha vida começou a mudar.

De repente, tudo foi se encaixando. Eu finalmente recuperei a paixão pelo meu trabalho e comecei a me dedicar de corpo e alma nessa nova e desconhecida área. Tentei aprender o máximo que pude e corri atrás de outras oportunidades que expandissem ainda mais meu horizonte como profissional. Dentre tantas pesquisas, comecei a reviver um velho sonho dos tempos de faculdade – tirar um “sabático” para trabalhar com organizações não-governamentais. E, ousada que sou, me candidatei logo para a que eu mais queria: Médicos Sem Fronteiras.

Durante meu longo processo de pesquisa para decidir se eu serviria ou não para trabalhar com a organização (tanto profissionalmente, como psicologicamente), eu me vi cada vez mais envolvida nesse novo futuro que ainda não era meu, mas que eu tanto queria. Vi no trabalho com o MSF o tipo de “recompensa” que eu sentia no hospital, e que nunca experimentei enquanto trabalhava em uma simples farmácia: na área clínica você está, de fato, fazendo a diferença para alguém. O que não é necessariamente verdade na área comercial.

Então, entre planos de como balancear minha profissão lá no Brasil, mais o sabático com alguma ONG, eu percebi que não precisaria ser, necessariamente, um pequeno período. Que minha vida não pausaria em Vitória para quando eu voltasse.  Na verdade, o sabático era mesmo uma expatriação, e minha vida mudou comigo para o outro lado do mundo: em uma mala de 20kg e uma pequena bagagem de mão. Mais do que o necessário para os 9 meses que, inicialmente, estarei no vivendo no Paquistão.

Mas voltando ao assunto: eu me candidatei oficialmente ao MSF em Junho de 2016 e, depois de um longo processo seletivo, recebi minha aprovação em 16 de Dezembro do mesmo ano – e isso transformou meu 2017 de uma maneira que eu nunca acharia que aconteceria. Desde então eu cumpri meus últimos meses no hospital onde trabalhava, participei de diversos treinamentos com a organização, viajei de férias com minha irmã, visitei muitos familiares e amigos, e também terminei um relacionamento de 9 anos com uma pessoa maravilhosa, mas que não encaixava mais nos planos que eu tinha para a minha vida.

E foi nessa fase que eu abri mão de mais de 90% dos bens materiais que eu tinha. Não tenho mais casa, carro, móveis. Hoje, meus poucos pertences, coisas de valor sentimental, então em caixas na casa dos meus pais. Eu tenho uma passagem de volta para o Brasil em Junho do ano que vem, mas se eu vou usá-la, nem sei. Tô amando tanto o Paquistão, que é perigoso eu querer estender minha estadia por aqui. Ou posso fazer uma viagem de um, dois meses quando a missão acabar.  Posso emendar em uma missão em outro país. E posso também me fixar em uma cidade qualquer para aprender uma nova língua.

Essa incerteza do amanhã, que não é pra todo mundo, trouxe uma leveza para a minha vida que eu não sabia que precisava. Sim, eu sei que eventualmente eu vou querer ter novamente uma casa para chamar de minha, mas ela pode ser um porto seguro, uma parada estratégica nessa minha nova estrada profissional. Minha missões podem se tornar mais curtas e eu posso desejar estar em casa mais vezes. Posso também mudar mais uma vez e até deixar de trabalhar em missões para, quem sabe, me dedicar à um mestrado, ou um trabalho tradicional com horário de almoço e finais de semana.

Enfim, eu não sei sobre o amanhã. O que eu sei é que meu trabalho nunca demandou tanto de mim. Hoje, domingo, eu terei que trabalhar, ainda que ontem eu tenha trabalhado também. Tenho horário para entrar no escritório, mas nunca para sair. Essa semana viajo para visitar meu primeiro projeto e só volto de lá em duas semanas. Depois, viajo para outro, onde passarei Natal, Ano Novo e ficarei até o início de 2018 – mas mesmo com toda essa correria, a vida que havia se perdido dentro de mim voltou com tanta força, que eu tenho tirado energia não sei de onde para sair quase todos os dias após o trabalho para um café, uma livraria ou uma caminhada pelos charmosos mercados de Islamabad.

Eu confirmei uma teoria que tinha de que a gente não precisa de muito para ser feliz. O pouco que eu trouxe comigo é mais que o suficiente, e eu acredito que fazem anos que eu não me sentia tão completa e confortável na minha rotina. Até mesmo a minha panqueca de banana e aveia de todas as manhãs me trás uma satisfação inexplicável, e eu me recuso a voltar para o limbo que era a supervalorizada zona de conforto.

Enfim, nem sei se no final de tudo esse post fez algum sentido, mas esse mix de sentimentos é o que anda acontecendo dentro de mim nesse primeiro mês longe do Brasil. É uma sensação tão boa, que eu queria tentar colocar em palavras. Queria registrar para que, no futuro, eu pudesse me recordar daquele tempo em que eu, enfim, mudei minha história!

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